Eleição para prefeito revela a indiferença dos moradores pelo futuro da cidade.
Pesquisa recente revelou que cerca de 70% dos habitantes de São Paulo gostariam de se mudar da cidade. A verificação mostra a falta de identidade dos paulistanos com o local onde vivem e seu elevado grau de insatisfação com as condições de vida urbana.
Para quem conhece São Paulo e seu trânsito, a poluição, violência e precariedade do transporte, essa pesquisa não chega a surpreender, pois, além do trabalho, os atrativos da metrópole – como intensa vida cultural e consumo sofisticado – só são usufruídos por uma elite privilegiada ou intelectualizada.
Mas, diante da inevitabilidade de continuar a morar em São Paulo, que (ainda) concentra grande número de empregos, oportunidades e serviços especializados, o que surpreende é a falta de preocupação da maioria dos paulistanos em alterar a situação presente ou mesmo debater com profundidade alternativas de gestão da cidade para melhorar seu cotidiano.
Tudo se passa como se o paulistano não fosse habitante da cidade, mas um (i)migrante que veio “fazer a América” e, morando a contragosto, está apenas esperando a feliz hora em que não precisará mais aturar o lugar horrível onde vive. As intermináveis filas que se formam nas rodoviárias e nas saídas da cidade nos fins de semana prolongados, como se milhões de pessoas se transformassem subitamente em refugiados dispostos a qualquer sacrifício para abandonar São Paulo, são expressivas da falta de identidade do morador com sua cidade.
As eleições para prefeito são um exemplo significativo da indiferença dos moradores de São Paulo por seu futuro. Não se exigiu um debate aprofundado sobre as alternativas para melhorar a vida na cidade e se desprezou quem tentou fazê-lo. Não houve preocupação em comparar formas de gestão, propostas para equacionar os problemas urbanos ou projetos capazes de capacitar São Paulo a enfrentar o desafio de se tornar uma cidade mundial, única forma de evitar o esvaziamento econômico e a decadência urbana, hoje já visíveis. Imagens falsas produzidas pelos publicitários, símbolos ocos e preconceitos construídos artificialmente se tornaram os principais elementos de campanha.
Os candidatos a prefeito preferiram ou foram obrigados a passar grande parte do tempo desfilando, ao sol ou na chuva, em insuportáveis, poluentes e barulhentas carreatas, como se fossem, eles próprios – e não suas propostas – produtos mercadológicos à venda.
Mas essa ausência de debate sobre o que se pretende para São Paulo terá conseqüências graves para o futuro da cidade. Infelizmente, o resultado mais provável da eleição que hoje se realiza não deixa esperanças de que, nos próximos anos, a Prefeitura seja capaz de impulsionar um processo de debate com a sociedade para construir uma agenda prioritária para tornar a cidade viável para o terceiro milênio, e atraente para seus habitantes. Poucas esperanças também se pode ter na Câmara Municipal, posto que a eleição da imensa maioria dos vereadores esteve marcada pela ausência de qualquer compromisso, além dos fisiológicos e clientelistas.
Assim, as expectativas de melhorar a qualidade de vida de São Paulo residem no desenvolvimento de ações oriundas da sociedade para construir e lutar por uma agenda que seja capaz de lhe dar um novo rumo, na perspectiva de capacitá-la para se tornar uma das “cidades mundiais” que, num planeta interligado, terão cada vez maior importância.
Fazendo parte da rede de “cidades mundiais”, São Paulo competirá com as demais para atrair investimentos, sedes de corporações, profissionais qualificados, feiras, simpósios internacionais, etc. Mas como atrair os “outros”, se até mesmo os paulistanos querem abandonar a cidade?
Para se qualificar como “cidade mundial”, São Paulo precisa se tornar eficiente, elevar a qualidade de vida dos moradores, melhorar a infra-estrutura de telecomunicações e transportes, ter mão-de-obra qualificada. Nada que se pareça com a declaração de Maluf de que “congestionamento é sinônimo de progresso” ou com a aplicação com educação de menos do que determina a Constituição, como ocorreu no último ano. Se São Paulo não conseguir dar esse salto, perderá o bonde da História e seu esvaziamento econômico será acentuado, gerando mais desemprego e violência urbana.
Uma agenda para São Paulo exige a descentralização da cidade, com subprefeituras e democracia na tomada de decisões, grandes investimentos para garantir a estruturação de um sistema de transporte coletivos eficientes e confortáveis, a construção de uma sólida esfera pública não-estatal, com parcerias entre o poder público e organizações não-governamentais para enfrentar a questão social e a prioridade para a educação, como elemento básico para o desenvolvimento. Essa agenda não parece estar no horizonte do poder público nos próximos anos.
Para alterar a tendência de fuga e de desinteresse pela cidade que se manifesta tão fortemente entre os cidadãos de São Paulo será necessário criar uma articulação que mobilize a sociedade para debater essa agenda e colocá-la no centro do cenário político e, de fora para dentro, impor alternativas que recriem o orgulho de ser paulistano.