Recentemente participei do debate após a exibição do documentário “Ecos de Sabedoria: Vozes que Não Envelhecem”. O documentário conta as histórias de quatro mulheres idosas que seguem ativas, participando da vida comunitária, compartilhando experiências e exercendo plenamente sua cidadania.
Ao assistir a esses relatos, fiquei pensando em uma questão que costuma receber pouca atenção no debate urbano: nossas cidades estão preparadas para uma população que vive mais?
Faço essa pergunta não apenas como urbanista e professor, mas também a partir da minha própria experiência. Aos 71 anos, continuo trabalhando, pesquisando, dando aulas, participando da vida pública e percorrendo a cidade. Isso me faz perceber com ainda mais clareza como o espaço urbano pode favorecer ou dificultar a autonomia, a convivência e a participação social.
Hoje, cerca de 15% da população da cidade de São Paulo tem mais de 60 anos. Nas próximas décadas, essa participação deverá dobrar. O envelhecimento da população brasileira já não é uma tendência futura. É uma realidade presente.
Uma cidade boa para os idosos é uma cidade melhor para todos
Ao longo da minha trajetória como urbanista, aprendi que uma cidade adequada para as pessoas idosas beneficia toda a população.
Calçadas acessíveis, travessias seguras, transporte público de qualidade, áreas verdes próximas de casa, equipamentos culturais e serviços distribuídos pelos bairros são fundamentais para quem envelhece, mas também tornam a vida melhor para crianças, pessoas com deficiência e famílias inteiras.
O problema é que grande parte das cidades brasileiras foi planejada para uma população mais jovem e para uma lógica excessivamente dependente do automóvel. O resultado são deslocamentos longos, dificuldades de locomoção e situações de isolamento que afetam especialmente os idosos.
Uma das mensagens mais importantes do documentário é que envelhecer não significa deixar de participar da vida social. Pelo contrário. A longevidade deve ser vista como uma conquista da sociedade.
Para que isso aconteça, não basta garantir atendimento médico. É preciso criar condições para que as pessoas possam continuar circulando pela cidade, encontrando amigos, frequentando atividades culturais, participando da vida comunitária e mantendo sua autonomia.