15 de dezembro de 1985

Associações comunitárias debatem mutirão

15 de dezembro de 1985

Associações comunitárias debatem mutirão

Realizou-se nos dias 31 de novembro e 1º de dezembro no Instituto Paulo VI, Taboão da Serra, o 2º Encontro de Movimentos de Moradia por ajuda-mútua e autogestão.

Embora o número de participantes tenha sido menor do que o alcançado no Encontro de agosto/84, este 2º Encontro representou um grande avanço na luta pela habitação baseada nos princípios de ajuda-mútua e autogestão, pois a participação e envolvimento dos presentes foi muito mais intenso, logrando discutir aspectos concretos da maior importância aos movimentos e associações envolvidas no processo de construção por mutirão e administração da própria comunidade, como a relação movimento/Estado, os problemas de organização do mutirão, a Política Habitacional e formação e institucionalização da Coordenação. Participaram os movimentos do Grajaú, V. Remo, Pq. Santo Antonio, Jd. Comercial, Vl Comunitária, Recanto da Alegria, Vl Industrial, Jd Macedônia e Fav. M’Boi Mirim, grande parte dos quais está em meio ao processo de construção por mutirão ou em vias de iniciar a obra, fazendo com que a reflexão sobre este aspecto adquirisse uma grande importância no Encontro, polarizando a atenção dos participantes.

Enquanto no 1º Encontro a questão de ajuda-mútua (mutirão) e autogestão era uma proposta ainda abstrata, agora estes temas aparecem com muito maior concretude face a própria experiência adquirida no desenvolvimento do trabalho. Foi questionado, por exemplo, o fato da obra ser inteiramente edificada com trabalho não remunerado, pois o cansaço começa a desgastar os mutirantes, já explorados no emprego principal; julgou-se conveniente mesclar, em parte, trabalho remunerado ( de preferência dos próprios mutirantes) ao trabalho voluntário sem comprometer a auto-gestão. Outra questão muito debatida foi a relação entre comissão, técnicos, mestres, monitores e mutirantes no dia-a-dia da obra, destacando-se a necessidade de se criar um clima de responsabilidade mútua que tornasse desnecessária qualquer tipo de hierarquia e de exercício da autoridade e poder na obra. Este talvez tenha sido um dos pontos altos do Encontro, quando expressou-se com clareza a opção pela auto-gestão como a rejeição a formas autoritárias de relação no trabalho; travou-se enfim, a partir de um debate sobre a organização do mutirão autogerido pelos seus participantes, uma discussão sobre aspectos concretos de construção do socialismo – sem falar nele.

Outra resolução de grande importância foi a criação da Coordenação das Associações Comunitárias de Construção, que deve se institucionalizar a curto prazo, formulando um estatuto, a ser aprovado em grande assembléia, que tenha como princípios a ajuda-mútua, autogestão, solidariedade e propriedade comum. Foi eleita no Encontro uma diretoria executiva provisória de 7 membros com funções específicas (Administração, Finanças, Solidariedade, Relações Externas, Imprensa e Divulgação, Educação e Propaganda, Recreação e Cultura) e criando um Conselho formado por dois membros de cada Associação ou Movimento filiado à Coordenação eleitos na sua base. Ficou estabelecido que a Coordenação desenvolverá esforços para atrair aos seus princípios outros movimentos e Associações de luta por moradia.

Sobre a Política Habitacional, além de se aprovar uma série de propostas que visam descentralizar o poder federal sobre a questão e estimular a criação de Associações de Construção Comunitária, resolveu-se articular com outros movimentos e entidades de trabalhadores e de carentes de habitação uma Plenária Popular de reformulação da Política Habitacional, visando influir nas modificações que o governo promete fazer no BNH.

Apesar da intensidade das discussões, não faltou tempo para um forró, para a animação e para a música, enfim para a integração entre os participantes que sem exceção saíram satisfeitos com os resultados alcançados, como ficou claro na avaliação realizada na primeira reunião do Conselho realizada no dia 9/12.

A Diretoria Provisória formada pelos companheiros Taicã (Grajaú), Olimpio (Recanto da Alegria), Waldomiro (V. Comunitária – SBC), Modesto (J. Comercial) reuniu-se no dia 26/12 para definir o plano de trabalho da Coordenação.

Como citar:

BONDUKI, Nabil. Associações comunitárias debatem mutirão. O Estado de S.Paulo, São Paulo, dez. 1985.

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