27 de abril de 2002

Ganhar sem perder a linha

27 de abril de 2002

Ganhar sem perder a linha

Lula segue em primeiro nas pesquisas. As eleições de 2002 representam uma grande oportunidade de mudar o rumo das decisões no País. Para isso, porém, não podemos nos descaracterizar.

O PT realizou em março as prévias para a escolha do nosso candidato a presidente. Cerca de 170 mil filiados votaram, num processo inédito de democracia partidária. A candidatura de Lula, com 85% dos votos, foi valorizada pelo processo e Suplicy, embora derrotado, deu uma grande contribuição ao partido.

A ausência de debates entre os dois é certamente a grande crítica que pode ser feita a este processo. Perdemos uma grande oportunidade para discutir o programa do partido para as eleições  presidenciais e as alianças partidárias e sociais que precisamos fazer para ganhar as eleições e governar o País numa perspectiva transformadora.

Militantes, simpatizantes e eleitores do PT têm discutido a possibilidade de composições com partidos de centro e de centro-direita como o PL e setores do PMDB. Elas vêm sendo negociadas  pelas lideranças partidárias, com o aval da direção nacional. Muitos estão indignados com a aproximação com políticos conservadores ou acusados de corrupção; outros a consideram necessária para vencer as eleições, pois não somos majoritários na sociedade e em eleições anteriores ficamos isolados – situação agravada, neste ano, pelo fato de PSB e PDT terem outros candidatos. A maioria não está convencida quanto aos benefícios políticos e eleitorais da iniciativa.

De qualquer modo, não foi oferecida aos petistas uma real possibilidade de interferir nas decisões. Diversas causas podem ser apontadas para isto: a ausência de discussão interna sobre nossas propostas e princípios; o desgaste das instâncias partidárias, como diretórios e encontros, mais voltados para a disputa de poder do que para a formação e o debate político; a burocratização partidária (que, aliás, tem desfigurado todos os partidos tradicionais de esquerda); a dificuldade de se praticar a democracia interna num partido de massas. São problemas que o PT, como o grande acontecimento na esquerda mundial nos anos 80 e 90, precisa e tem condições de enfrentar com organização, criatividade e espírito democrático.

Temos dado uma pequena contribuição ao manter vivo nosso espaço de eventos, a Casa da Rodésia, onde acontecem discussões importantes. No mês passado, José Genoino e Aloizio Mercadante debateram abertamente com o público, que questionou as negociações recentes e certas declarações das nossas lideranças.

Há muito tenho me posicionado pela necessidade do PT estabelecer uma política de alianças que vise à transformação do Brasil. Sozinhos – somamos atualmente apenas 59 dos 506 deputados federais -, não temos força para erradicar a especulação financeira, o latifúndio, a concentração de renda e o crime organizado, pontos fundamentais do nosso programa.

Tais composições, no entanto, devem ter como base um conjunto de propostas claramente debatido, que estabeleça compromissos transparentes e éticos. E, para garantir que estes acordos sejam cumpridos, precisamos escolher interlocutores que tenham credibilidade. Infelizmente, muitos dos que estão hoje no espectro possível de aliados não se enquadram neste requisito.

Entre vitórias e derrotas, o PT vem ampliando seu desempenho eleitoral e sua influência na sociedade. O motivo é seu reconhecimento como um patrimônio da luta pela ética, pela justiça social e pela democracia. Não podemos correr o risco de, no intuito de vencer, nos descaracterizar.

Como citar:

BONDUKI, Nabil. Ganhar sem perder a linha. Câmara Municipal de São Paulo, São Paulo, abr. 2002.

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